Um galpão pequeno sem ventilação, com teto de zinco e água quente para beber. São nestas condições que os trabalhadores de uma pequena fábrica de resistência elétrica em Sorocaba, interior de São Paulo, enfrentam as recentes ondas de calor.

“Tive pressão baixa e dor de cabeça. Parei de trabalhar e fui para fora da fábrica até melhorar”, conta um funcionário sobre o calorão de novembro, quando os termômetros bateram 38ºC na cidade. A pedido, ele não será identificado.

As altas temperaturas provocaram um aumento de denúncias a sindicatos e ao MPT (Ministério Público do Trabalho) por más condições laborais. Embora as mudanças climáticas sejam uma realidade, empregadores e órgãos públicos não parecem estar preparados para enfrentá-las.

Trabalhadores, sindicatos e especialistas ouvidos pela Repórter Brasil pedem mais ações de fiscalização e urgência para adequar os ambientes de trabalho. Uniformes mais leves, água fresca e climatização adequada são algumas das medidas, para que o trabalho no calor extremo não seja considerado o novo normal.

“O futuro das mudanças climáticas chegou. Os empregadores terão que se adaptar e adotar medidas para esse perigo externo”, disse Juliane Mombelli, procuradora vice-coordenadora da Codemat (coordenadoria do MPT para saúde do trabalho).

Na pequena indústria de Sorocaba, os trabalhadores afirmam ter registrado 48°C na fábrica em novembro. A situação só começou a melhorar quando o Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba foi acionado.

“A empresa prometeu bebedouro novo e que aumentaria o teto ou colocaria forro. Até agora só o bebedouro [industrial] chegou”, diz o funcionário.

Conforto térmico

Segundo o MPT, as empresas são responsáveis pelo conforto térmico dos trabalhadores, e devem oferecer condições de temperatura e umidade em limites toleráveis. Para isso, os empregadores devem seguir normas do Ministério do Trabalho e Emprego, que variam segundo a atividade econômica e o trabalho exercido.

No ABC paulista, os metalúrgicos das fábricas de veículos adotam a Norma Regulamentadora 15, que recomenda temperatura máxima de 31°C. Se o trabalho ocorrer acima desse limite, deve ser pago adicional de insalubridade.

Na fábrica da Scania em São Bernardo do Campo, uma foto obtida pela Repórter Brasil mostra o termômetro em 40,1°C — portanto, acima do limite. A empresa diz que não reconhece a imagem.

“Ficamos fechados num forno. Quando tem onda de calor, é insuportável — cansamos mais rápido, cai a pressão e a produtividade. Chegamos em casa com dor nas pernas e inchaço nos pés”, disse funcionário que trabalha há mais de dez anos no local, que pediu para não ser identificado.

Os metalúrgicos ouvidos pela reportagem dizem que há bebedouros e ventiladores no local, mas insuficientes para os dias mais quentes. Eles pedem mudança dos uniformes e melhor climatização. “A empresa está modernizando maquinários e produtos, mas dá apenas o mínimo para trabalhar”, afirma o metalúrgico.

As chamadas de emergência aumentaram nas fábricas da região, diz Claudio Ribal, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e Região e vice-presidente da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) da Scania. “Teve dias com cinco trabalhadores passando mal.”

Em negociação com a fábrica, foram combinadas paradas técnicas de 15 minutos durante a tarde e medidas de hidratação. Os trabalhadores relatam que essas pausas têm sido suficientes para amenizar o calor.

A Scania afirmou que há pausas programadas nos setores produtivos em dias de temperaturas mais altas, e que os uniformes foram desenvolvidos para oferecer segurança e conforto térmico. Segundo a empresa, as fábricas têm ventilação específica ou telha termoacústica, que contribuem para a diminuição do calor.

O Ministério do Trabalho e Emprego diz, em nota, que a fiscalização do trabalho já exige medidas de proteção e compensação.

Quem é mais afetado

Os setores que lideram o ranking de denúncias ao MPT são atividades a céu aberto: agricultura e construção civil. Em ambientes fechados, aparecem fábricas, lojas, supermercados, lanchonetes, empresas de TI e telemarketing.

O MPT diz que as queixas vieram também de setores que não costumavam aparecer na lista, como quiosques de praias e grandes eventos no Rio de Janeiro, e brigadistas que atuam contra queimadas na Amazônia.

Independentemente do setor, os mais afetados são os trabalhadores de baixa renda, que ocupam empregos com mais riscos ocupacionais, ou vivem em áreas mais sujeitas a desastres climáticos.

“Esses trabalhadores têm um ambiente de trabalho insalubre e, quando vão para casa, continuam expostos ao estresse térmico”, disse Sandra de Sousa Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fiocruz.

A exposição ao calor extremo pode levar a uma série de problemas de saúde, como desidratação, aumento da frequência cardíaca, queda de pressão e problemas respiratórios. Denúncias podem ser registradas nos principais canais do MPT.

Para os trabalhadores do chão de fábrica, a expectativa é por melhores condições. “O administrativo e a engenharia têm ar condicionado para quem fica no computador o dia todo. A gente que é trabalho braçal passa mal, vai no banheiro e depois volta a trabalhar. Tem que aguentar”, lamenta um dos metalúrgicos.

Leia a reportagem completa no site da Repórter Brasil.

Fonte: UOL